
Uma reflexão sobre por que o sorriso pode se tornar raro na vida adulta — e por que a resposta talvez não seja fingir, mas construir uma vida com liberdade e segurança suficientes para que a alegria volte por conta própria.
Há uma fotografia minha, tirada no outono de 2008, em que estou de pé dentro da Dorton Arena, em Raleigh, antes de um discurso de campanha de Barack Obama.
Eu tinha catorze anos.
Estou sorrindo.
Não aquela pequena expressão de boca fechada que as pessoas fazem quando alguém aponta uma câmera para elas. Não aquela imitação forçada de felicidade que aparece quando o fotógrafo diz: Vamos, sorria.
Quero dizer que estou sorrindo de verdade.
Meu rosto inteiro parece estar de acordo com o que está fazendo.
Já vi essa foto tantas vezes que ela adquiriu, para mim, uma qualidade vagamente arqueológica. Há ali evidências de uma habilidade que um dia tive sem esforço algum.
Em algum momento do caminho, sorrir ficou difícil.
Se hoje tento sorrir de propósito, o resultado costuma ser terrível. Um lado da minha boca parece receber instruções diferentes das do outro. Meus olhos fazem alguma coisa sem relação com o restante. Os músculos do meu rosto se organizam numa expressão que se parece menos com felicidade e mais com um ator tentando representar felicidade sem ter tido tempo suficiente para ensaiar.
Parece falso porque é falso.
Isso é estranho principalmente porque não me considero uma pessoa particularmente infeliz.
Há muitos dias em que me sinto bem.
Eu me interesso pelas coisas. Fico absorto em projetos. Gosto de música, ideias, exercícios, conversas, caminhadas, descobertas, pequenas conquistas. Posso sentir paz. Posso sentir esperança. Posso me sentir profundamente satisfeito com alguma coisa sem que surja em meu rosto nenhuma vontade especial de anunciar esse fato.
Por isso, aos poucos, deixei de tratar a ausência de um sorriso como evidência de que há algo errado.
Talvez meu rosto esteja simplesmente dizendo a verdade.
Existe uma expectativa peculiar de que os adultos pareçam felizes.
Sorrimos quando somos fotografados.
Sorrimos quando conhecemos alguém.
Sorrimos em ambientes profissionais para demonstrar simpatia.
Às vezes, espera-se que pessoas que trabalham atendendo ao público mantenham uma expressão agradável durante horas, independentemente do que estejam pensando ou sentindo.
Mesmo fora do trabalho, o sorriso pode funcionar quase como pontuação. Ele diz às outras pessoas que uma frase foi amistosa. Que um silêncio não é hostil. Que está tudo bem.
Não há nada de intrinsecamente errado nisso. A vida em sociedade depende de convenções e, às vezes, um sorriso é apenas uma forma de cortesia.
Mas há outra ideia que ocasionalmente se associa ao sorriso: a de que, se você sorrir com frequência suficiente, talvez o sentimento venha depois.
Finja até conseguir.
Talvez haja alguma verdade nisso.
O comportamento pode influenciar as emoções. A postura pode afetar a confiança. Rituais podem mudar o humor. Os seres humanos não são perfeitamente divididos entre um eu interior e um corpo exterior, com o trânsito fluindo em apenas uma direção.
Mas, mesmo que sorrir deliberadamente pudesse me deixar mais feliz, não tenho especial interesse em treinar isso.
Não é exatamente felicidade que me falta.
O que me falta é algo mais próximo da leveza de não carregar um fardo.
Uma das descobertas da vida adulta é que sobreviver se transforma numa tarefa administrativa recorrente.
Você precisa de renda.
E, no mês seguinte, precisa de renda outra vez.
Sua moradia depende disso. Sua alimentação depende disso. Seus cuidados médicos dependem disso. A eletricidade depende disso. Sua capacidade de se recuperar de algum desastre futuro depende do dinheiro que você conseguiu acumular antes que o desastre chegasse.
Isso é particularmente evidente nos Estados Unidos, onde muitas das coisas de que uma pessoa precisa para continuar viva e em condições de funcionar estão ligadas, direta ou indiretamente, ao emprego.
Você pode estar perfeitamente confortável numa tarde de terça-feira e, ainda assim, saber que esse conforto é condicional.
Continue trabalhando.
Continue ganhando dinheiro.
Não caia longe demais.
Há um processo rodando em segundo plano.
Na maior parte do tempo, ele não domina a consciência. Você pode preparar o jantar. Ler um livro. Caminhar por um parque. Rir de alguma bobagem na internet. Fazer planos para o futuro.
Mas o processo continua rodando em algum lugar por baixo de tudo.
O estranho a respeito de um fardo é que você não precisa estar sofrendo ativamente sob o peso dele a cada segundo para que seu corpo saiba que está carregando alguma coisa.
Talvez isso seja parte do que mudou entre o garoto na Dorton Arena e o adulto que agora olha para aquela fotografia.
Aos catorze anos, a engrenagem responsável por manter minha vida inteira funcionando existia, em grande parte, em algum lugar fora do meu campo de visão.
Os adultos cuidavam da hipoteca.
Os adultos cuidavam do plano de saúde.
Os adultos garantiam que houvesse comida.
Os adultos entendiam o que aconteceria se o dinheiro parasse de entrar.
É claro que havia outros problemas aos catorze anos. A infância não é automaticamente fácil, e a vida adulta não é automaticamente miserável.
Mas havia uma espécie de leveza estrutural que é difícil reproduzir depois que você entende quanta coisa em sua vida precisa ser mantida continuamente.
Durante muito tempo, talvez eu tivesse descrito aquilo em cuja direção estava caminhando como sucesso.
Mas não é bem isso.
O sucesso é fácil demais de quantificar.
Mais dinheiro. Um emprego melhor. Um projeto bem-sucedido. Alguma realização impressionante.
Essas coisas podem ajudar, mas não são o verdadeiro destino.
O destino é uma vida que já não pareça estar permanentemente se preparando para a possibilidade do próprio colapso.
Margem financeira suficiente para que um erro seja apenas um erro.
Independência suficiente para que a perda de uma fonte de renda não ameace todo o restante.
Controle suficiente sobre meu tempo para que sobreviver e viver deixem de parecer atividades concorrentes.
Espaço suficiente para fazer música, construir coisas, aprender, amar pessoas, perambular por aí e, de vez em quando, não fazer absolutamente nada sem que algum contador invisível continue rodando.
Esse é o futuro que imagino quando penso na possibilidade de um dia voltar a sorrir com facilidade.
Não triunfo.
Alívio.
Não uma fotografia de alguém no topo de uma montanha, com os punhos erguidos.
Mais provavelmente uma tarde perfeitamente comum, em que a engrenagem finalmente tenha ficado silenciosa o bastante para que ninguém esteja pensando nela.
Também aprendi a apreciar algo num rosto neutro.
Ele não significa necessariamente tristeza.
Pode significar concentração.
Pode significar calma.
Pode significar que nada do que está acontecendo naquele momento exige comentários dos músculos faciais.
Algumas pessoas sorriem com facilidade e frequência. Talvez seja simplesmente assim que suas emoções percorrem o corpo.
As minhas, aparentemente, não fazem isso.
Não existe nenhuma virtude especial em uma configuração ou na outra.
O erro seria tratar uma expressão externa como prova obrigatória de uma vida interior aceitável.
Prefiro deixar meu rosto ficar sério quando me sinto sério.
Se alguma coisa me fizer rir, vou rir.
Se alguma coisa me fizer sorrir, vou sorrir.
Mas não quero compor no rosto a expressão de alguém radiante só porque a alegria fica bem nas fotos.
Também há informação na ausência.
Quando olho para a fotografia de 2008, não penso que minha tarefa seja voltar a ser aquele garoto de catorze anos.
Aquela pessoa ainda não sabia muitas das coisas que sei hoje.
Eu não trocaria de lugar com ele.
E talvez o sorriso numa fase posterior da vida nem se pareça com o sorriso dele.
Talvez a alegria adulta seja mais silenciosa.
Talvez ela chegue com menos frequência, mas carregue mais peso.
Talvez um rosto mude junto com a pessoa que o carrega.
O que sei é que não quero ensaiar a expressão.
Não quero ficar diante de um espelho e ensinar aos músculos que posição devem assumir.
Não quero me tornar melhor em produzir a fotografia.
Quero continuar mudando as condições por trás dela.
Construir mais segurança.
Construir mais liberdade.
Abrir mais espaço.
Criar uma vida que exija menos vigilância.
E então, talvez, algum dia aconteça algo inteiramente banal.
Estarei conversando com alguém que amo, ou caminhando por algum lugar bonito, ou terminando um trabalho, ou sentado ao ar livre sem que nada particularmente urgente esteja à minha espera.
E, sem decidir fazer isso, sem conferir se parece natural, sem dar instrução alguma ao meu rosto, perceberei que ele se lembrou.
Esse é o sorriso que quero.
Não aquele que treinei.
Aquele que eu não precise mais treinar.
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